quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Conto - Olhai por nós

Um grito morre em sua garganta, sem conseguir ferir o silêncio. Depois de horas de berros, não sobra muita voz para os instantes finais. É sempre assim que acaba. 
Kleber desenterra o aço frio do peito da garota e espalha o sangue pela face. Repugnante. Mas gosto não se discute. Lamenta-se. E não me cabe julgá-lo, ele é apenas meu protegido. E eu sou seu segurança.
Abotoo meu terno e ajeito a gravata. Gosto de vestes tradicionais, “os modos fazem o homem”, é o que dizem. Admiro o trabalho que Kleber deixa para trás. Carne dilacerada. Unhas arrancadas. Olhos incinerados. O vermelho a tingir a pele. Um trabalho de artista. Pena que acabou rápido. Sim, esse tipo de coisa me dá prazer. Não devia, mas dá. Ainda que não goste de provocar dor, deliro ao assistir a outros produzindo. Por isso escolhi Kleber, que, desde novo, abria pequenos animais utilizando facas de cozinha. O garoto era um diamante bruto, pronto para ser lapidado. Desde então estamos juntos. Estava lá, quando deu o primeiro beijo. Estava lá, quando decepou a língua da primeira vitima. Nostalgia é um ópio suave, mas viciante.
A caminhada até a casa é longa, acompanhada por agulhadas geladas da chuva noturna. Mas, ao chegar, nada de toalhas ou banho quente para Kleber. Tirou uma vida por meio da dor e somente com a dor poderia se lavar. É a sua fé. Talvez eu devesse protegê-lo de si mesmo, mas o seu masoquismo está entre meus deleites favoritos. Aguardo o preparo de suas ferramentas de autoflagelo.

 “Olhai por todos deste chão, 
Pelos que têm bom coração!”

Ao fundo, o velho rádio toca baixinho. Reconheço a música: “Olhai por nós”, de Antônio Marcos. Olhai por nós? Que piada! Mal sabem eles que estão sempre sendo observados. 
Mesmo ali, posso senti-los. Procuro através da janela do apartamento e logo os vejo. Os seguranças das vítimas anteriores de Kleber. Eles o seguem há meses, querem vingança. Nunca a conseguirão, pois eu estou aqui. Sorrio para eles, malicioso, e logo desaparecem. Sou mais antigo. Mais poderoso. Kleber é o alivio do meu tédio, um bom passatempo. Não perderia por nada o meu brinquedo tão cedo. 
Percebo agora outra coisa: o brilho dicromático do giroflex das viaturas policiais ao longe. Eles o haviam encontrado. Estão ficando mais rápidos. Volto-me para Kleber e noto as lágrimas no seu rosto, enquanto se marca com ferro quente. Está em transe. Bastardo maluco.
Caminho até ele e o toco de leve no ombro. Uma súbita percepção dos arredores o atinge como um tiro. A famosa sensação que vocês, mortais, chamam de intuição. Cambaleante de dor, espia pela janela. Pressente que o perigo se aproxima. Pega tudo que é necessário e dispara para fora do apartamento. Abro minhas asas e o sigo, claro. Tenho de proteger o meu cliente.
Afinal, até mesmo assassinos seriais precisam de Anjos da Guarda.




Conto escrito por Dimitrius H. Alves
Ilustração de Giulia Moon
Este conto fez parte de uma das atividades práticas do Escrevivendo Criadores e Criaturas.

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