quarta-feira, 29 de junho de 2016

Atitude Profissional - Parte 3 - O que esperar

Quando digo que sou escritor - ou sou apresentado como - não é incomum que alguém se apresente como aspirante. Sempre há alguém com uma ideia ou mesmo com um livro na gaveta. Eu até faço um teste, em todo evento que participo: peço para que aspirantes levantem as mãos. Até agora, nunca tive um resultado abaixo de três mãos no ar. Nenhuma surpresa, claro. Em eventos literários, a probabilidade de haver quem sonhe em ser escritor é alta. E, por alta, estou usando um eufemismo, claro...
E, quando engato conversa com algum sonhador ou sonhadora, inevitavelmente pergunto o que esperam ao publicar um livro.
Parece uma pergunta simples, inofensiva, até. Mas não é bem assim.
Já ouvi vários: "Quero só publicar e ver no que vai dar..." Essa é a resposta mais comum.
E é a mais intrigante, para mim.
Afinal o que é "ver no que vai dar?" Pergunto à pessoa se ela quer vender, fazer sucesso, ser lida. A resposta que recebo é que ela sabe que isso é difícil. Não recusaria, mas sabe que é difícil. Quer mesmo é fazer com que aquele livro "exista".
Geralmente o que percebo é que a pessoa tem, sim, uma esperança (nem tão inconsciente quanto parece) de fazer sucesso, vender muitos livros. Mas inicia com um resguardo para o eventual (e provável) fracasso. O raciocínio é mais ou menos assim:
- Acho que vai fazer sucesso.
- Pode ser que não faça.
- Se fizer, eu ficarei muito feliz.
- Se não fizer, não fico triste nem posso levar a culpa... afinal, nunca disse que estava atrás de sucesso, quando publiquei.
Claro que existe todo tipo de intenção em publicar. Eu já editei livros de pessoas que queriam legitimamente ter uma tiragem impressa de suas ideias. Só porque acreditam realmente que essas ideias merecem existir no mundo impresso. Completamente viável, não vejo mal algum nisso. E há até aqueles que fazem tiragens apenas para dar aos familiares e amigos. Mas não é dessas situações que estou falando, entendam.
É dos que se colocam perigosamente no limbo do meio e acabam amassados como uma uva.
Explico:
Tem uma cena de Karatê Kid (desculpem a pobreza da referência, mas verão como é boa). O Senhor Miyagi diz a seu pupilo, o Daniel-San, que não existe essa de meio-karatê. Ou você luta karatê ou não luta. Se lutar meio-karatê, te esmagam como uma uva.
Querer profissionalizar-se e, ao mesmo tempo, querer manter-se numa zona de segurança para evitar a sensação de frustração é uma má ideia, porque:
1- A frustração virá. Inevitável, inescapável. A zona de segurança não dá segurança alguma.
2- Por manter um pé atrás, a pessoa nunca se compromete como poderia ou deveria e seu trabalho e sua carreira ficam num limbo incômodo. Não só para ela, como também para a editora e os leitores.
Um dos conselhos que dou às pessoas que me perguntam sobre "ser escritor" é:
Saiba exatamente o que quer e onde quer chegar. Não tem pretensão de carreira? Sequer cogite o "vamos ver como fica". Não utilize meia energia. Se quer ser escritor ou escritora profissional, assuma o compromisso, enfrente a briga, aguente a frustração. Mas eu garanto que a frustração da derrota por uma luta bem feita, de peito aberto, é bem melhor do que a frustração por uma meia-derrota, uma guerra que já havia começado com a rendição assinada.

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