quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Conto - Só se você quiser

"Personas", por Giulia Moon.


– Toc, toc!
– Quem é você?
– Sou seu personagem.
– Não criei um personagem que fala toc, toc.
– Tipo... toc, toc, tem alguém aí?
– Tá insinuando que não tenho nada na cabeça, é?
– E tem?
– Tenho você.
– Tecnicamente, ainda não.
– Claro que tenho!
– Então me diz: como eu sou?
– Você é um chato, isso, sim.
– Só se você quiser.
– Viu como é um chato?
– Vi nada, quem vê é você. Mas está em dúvida, não sabe como eu sou, o que quer de mim. Por isso eu ainda não existo, entendeu?
– Claro que entendi, porra, por isso estou sofrendo! Vê se me ajuda!
– Se você não consegue se ajudar, não posso fazer nada.
– Estou com o prazo estourando e ainda não criei um conto usando você.
– Isso é problema seu, não meu.
– Você é o meu problema.
– Ou solução.
– Você é sem graça, não tem nada de especial, não tem um pingo de carisma.
– Isso é problema seu, não meu.
– Você não me inspira!
– De novo: isso é problema seu...
– Tá, tá, táaaaaa! Você é mesmo um chato.
– Só se você quiser.
– Cara, você não podia ser menos repetitivo? Fale alguma coisa mais interessante!
– Me faça interessante, que eu falo.
– Ok, ok, vou te matar bem devagarinho, com requintes de crueldade no meu conto. E agora, hein? Percebeu que está nas minhas mãos? Eu posso tudo! Sou seu dono, seu deus, seu ser supremo! Tá com medo, agora?
– Só se você quiser.
– Parou, parou parou! Já chega! Vou tomar um chá de sumiço ali na esquina. Vê se desaparece da minha vida até eu voltar.
– Só se você quiser...

GIULIA MOON
(Conto criado durante conversa no grupo Escrevivendo – Criadores e Criaturas – 28/11/2015.)

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