quarta-feira, 2 de março de 2016

Conto - Marvin e a Balança do Carma



Em algum momento entre seus tantos eons de existência, os deuses chegaram à conclusão de que o Universo está muito melhor sem sua interferência direta. Afinal, as pessoas continuam fazendo coisas terríveis umas às outras, não importa quantas vezes se fale pessoalmente com elas. Então, numa reunião, que do lado de cá do nosso tempo teria parecido uma Eternidade, eles resolveram criar uma ferramenta que policiasse o Universo de maneira objetiva: a Balança do Carma. Dois pratos que equalizam as ações de cada ser vivo, de modo que ações “boas” são pesadas contra as “más”, e o Universo recompensa ou castiga de acordo com seu julgamento.
Depois de criar a Balança, os deuses se retiraram para umas férias, logo ali, além do véu que separa Tempo e Espaço, nas regiões abstratas e subjetivas da Existência. Muito de vez em quando, um deles tem que conferir como vai a Balança. Durante a vez de Bastet, a deusa gata do Egito, algum acidente misterioso – que ela jura de patas juntas não ter qualquer responsabilidade – surgiu uma minúscula rachadura num dos pratos da Balança. E foi assim que surgiu Tom: o primeiro erro do Carma.
Tom era astuto, perspicaz e habilidoso. Com esses talentos, seguindo a lógica humana, só poderia se tornar: ladrão e assassino. O resto seria desperdício de talento. Exceto, talvez, político.
Por uma sucessão improvável de acontecimentos cósmicos a energia que escapou daquele quebradinho no prato da Balança deu a Tom um poder valioso. Quando matava alguém, era recompensado com uma extensão de seu próprio tempo. Ou, de maneira mais simples, ganhava uma vida. Quando a vítima era um gato, sua recompensa era multiplicada por sete. Vidas de gato, claro, que não passam de vinte e um anos. Ainda assim, multiplicadas por sete, davam um bom número. Dava um pouquinho mais de trabalho. Afinal, Tom tinha que matar o mesmo bichano sete vezes para acumular o prêmio total. Mas valia a pena.
Marvin tivera o azar de ser um dos infortunados gatos escolhidos por Tom. Já perdera seis de suas vidas de cinco maneiras diferentes: afogamento, defenestração, atropelamento por carro, pitbull faminto e, nas duas últimas vezes, churrasco. Tom parecia ter gostado desse último método.
Mas o acaso cósmico é caprichoso e, ao entrar em sua sétima vida, Marvin foi escolhido por Bastet para ser o agente que corrigiria suas contas cármicas. A deusa gata fez com que Marvin reencarnasse num templo shaolin no alto da montanha do Pico do Gato. Lá, ele foi treinado pelos grandes monges guerreiros. Quando ele já estava pronto nas artes do combate, Bastet discretamente deixou pistas de sua localização para o assassino.
Tom chegou ao Pico do Gato numa noite de inverno. O luar brilhava com uma luz fria e afiada, refletido na neve e nos olhos de Marvin, que mediam cada movimento do inimigo à procura de uma abertura em sua defesa.
– Você sabe como isso acaba – miou Marvin, desembainhando sua Katana.
– Da mesma forma que as outras seis vezes, bola de pelos – caçoou Tom.
– Não desta vez, ladrão – disse o gato.
Marvin saltou com sua katana em punho, a lâmina virada para o pescoço de Tom, que aparou o golpe com sua espada, um trambolho pesado e desengonçado. Com a violência do impacto, Marvin foi jogado no ar e foi parar a poucos centímetros da beira do precipício. Só aterrissou em pé por ser um gato.
Tom girou sua espada e avançou na direção do gato, que pulou por cima do ombro do assassino e aterrissou por trás dele. Aproveitando a vantagem, o felino shaolin abriu um corte nas costas do inimigo.
– Você achou que seria fácil desta vez? – zombou o gato.
Furioso, Tom prometeu:
– Eu vou fazer um espetinho com sua carne e comer com farofa!
O assassino levantou sua espada sobre a cabeça e baixou com força, como se fosse uma marreta. Aproveitando as pernas arqueadas do adversário, o gato se jogou entre elas e se viu mais uma vez na retaguarda do inimigo, de onde aproveitou para cortar seus tornozelos. Tom caiu de joelhos, xingando o felino.
– Você tem ideia de quantos ano eu tenho, sua bola de pelos!? Eu sou imortal, seu imbecil!
– Era – corrigiu Marvin, e o decapitou, tingindo a neve de vermelho. O corpo do assassino murchou, reduzindo-se a uma casca vazia, a pó, a uma névoa, a nada. Marvin apenas lambia os pelos nas costas das patas, enquanto assistia ao fim de seu inimigo.
Em outro lugar, num plano de existência além das restrições de tempo e espaço, Bastet suspirou de alívio quando viu os pratos da Balança do Carma voltarem ao equilíbrio costumeiro. O rachadinho continuou ali. E como nunca mais o acaso produziu uma aberração como Tom, Bastet continuou a repetir a desculpa que dera desde a primeira vez, quando os outros deuses perceberam o defeito no prato: “Já estava assim, quando eu cheguei...”

Autor: Bruno Catão
Ilustração: W. Tierno
Este conto fez parte de uma das atividades práticas do Escrevivendo Menos é Mais. 

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