quarta-feira, 30 de março de 2016

Conto - A hora de Josué

A pinga desceu queimando. Caiu no estômago e corroeu mais um bocado da úlcera, mas Josué não sentia. Não distinguia nenhuma sensação. A fome não apertava, a dor não latejava, o prazer não saciava. A fome saciava, a dor apertava e o prazer latejava. Estava bêbado. As mãos suavam. A testa suava. Seu acordeom suava. À sua esquerda Barnabás castigava o bumbo. À direita, Soarez com um triângulo.
O boteco estava cheio, mas as portas estavam abaixadas. Faziam isso para evitar as reclamações dos vizinhos. Todos que permaneciam no bar, àquela hora, eram fregueses constantes. Fiéis.
Barnabás deu três batidas no bumbo para anunciar a próxima música. Josué respirou fundo e comprimiu o instrumento, arrancando um som alegre e malicioso.
Os homens bebiam cerveja e pinga e fumavam cigarros baratos, comprados de camelôs. As mulheres dançavam libidinosas, com coxas e barrigas à mostra.
A música acabou. Josué tomou outro gole. Longo, entorpecente. Olhou o relógio da parede. Não sabia precisar a hora, mas o ponteiro menor havia passado do número 12. Era tudo o que ele precisava saber.
Barnabás bateu o sinal para a próxima música. Josué começou a tocar. Seus dois companheiros não acompanharam, de início. Era uma música que não conheciam. Com esforço, pegaram o ritmo. Ela era forte, agressiva. Barnabás começou a torturar o bumbo com crueldade e força. O triângulo tremia na mão de Soarez.
Os homens e mulheres dançaram. Excitaram-se. Alguns até mesmo se morderam.
Josué suava. Seu rosto transfigurado. Os olhos arregalados, os lábios sem cor, comprimidos, os dentes trincados.
Quando parecia que não havia como incendiar mais a música, Josué começou a cantar.
Sua voz estava rasgada, corrompida pelo álcool e pelo ódio.
Josué estava com muito ódio naquela noite. Tudo em sua vida ia mal. A mulher que deixara no sertão, ele soube por carta, havia se casado com um fazendeiro e mudado para o pantanal, levando seus três filhos. A mulher que arranjara na cidade, essa ele tinha flagrado naquela tarde, esfregando-se com um vizinho seu. Ele matara os dois e, enquanto tocava naquele boteco, os corpos provavelmente estariam começando a gelar e seriam encontrados pelos dois filhos que a moça tinha de um casamento anterior.
Josué sabia que não podia tocar aquela música depois da meia-noite. Ele havia sido avisado. Fora na noite em que pedira os favores do diabo, numa encruzilhada, oferecendo farofa, pinga e fumo.
Mas ele cantou. Queria acabar com tudo e todos.
O tinhoso havia avisado. Aquela música era especial. Transformaria Josué no rei do baião. Mas não depois da meia-noite.
Josué rosnou a poesia. Ela falava de cavalos com narinas em fogo.
O ar do boteco esquentou e do bumbo de Barnabás saía o som de cascos castigando a caatinga.
A poesia falava de bodes comedores de tripas e urubus devoradores de olhos.
Os intestinos dos dançarinos dobraram e doeram e eles choraram.
Josué cantou sobre os cangaceiros mortos que vagavam como fantasmas vingadores de injustiças que sofreram e provocaram.
Quatro cavaleiros atravessaram a porta e não sobrou viv’alma no boteco. Vestiam calças de couro e chapéus de cangaceiro. Nas mãos, rifles que cuspiam o fogo do inferno. Josué sorriu quando percebeu que sua miséria acabaria. Chorou e implorou quando percebeu que ela estava só começando.
No dia seguinte, o massacre foi anunciado como mais uma chacina. Não havia sinal dos cavaleiros com roupas de cangaceiros. Josué não estava entre os mortos. Apenas seu acordeom. Até hoje, ele é procurado pelo assassinato da mulher e de seu amante.

Este conto foi escrito em 2012. Fará parte da nova edição de Cira (ainda sem previsão de lançamento).
Texto e ilustração de W. Tierno.

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