quarta-feira, 6 de abril de 2016

Conto - Teddy



Estou aconchegado entre as cobertas, cercado pelos braços de Martin.
Martin é o meu melhor amigo, e eu sou o  melhor amigo de Martin. Quando brincamos juntos de piratas, heróis e aventureiros, meu coração transborda de felicidade.
— Teddy! Teddy! — ele chama com sua voz alegre.
Eu o chamo de volta: Martin! Martin! Queria que ele me ouvisse, mas eu, um simples urso de pelúcia, não tenho voz. Se tivesse, o confortaria quando os seres maiores, que ele chama de “mamãe” e “papai”, o forçam a me deixar em casa para ir para a “escola”, aquele lugar do qual ele diz ter tanto medo. Se pudesse, eu responderia, quando ele me segura perto do coração e diz: 
— Eu te amo, Teddy. 
Eu diria baixinho, no seu ouvido, que eu o amo também.
É noite, agora, e está muito escuro. Martin está adormecido, abraçado ao meu corpo macio. De repente, mãos gigantescas me agarram pela cabeça e me tiram dos braços do meu amigo. Eu quero gritar: Martin! Martin! Socorro! Mas nenhuma voz sai da minha boca lacrada por fios e tecido. Devem ser os monstros da noite, aqueles que – Martin tinha me contado – se escondem debaixo da cama ou dentro do armário e, enquanto dormimos, saem de seus esconderijos para nos pegar.
— Mas eu não tenho medo deles! — dissera ele. — Porque mamãe me disse que você vai me proteger.
Agora sou eu quem está com medo. Não do que vai acontecer comigo, mas de que Martin seja atacado pelos monstros. Força! Grito dentro da minha cabeça de pelúcia, mas não consigo mover um fio do meu corpo para proteger meu amigo. Os monstros me afastam mais e mais de Martin. Levam-me para fora do quarto e fecham a porta.
Quero chorar! Quero lutar! Mas, do meu corpo, só sai o enchimento de algodão, que escapa pelas feridas que ganhei nas tantas aventuras que vivi com Martin.
De repente, os monstros param no corredor e acendem a luz. Se pudesse, meu queixo cairia de surpresa, mas o meu rosto de pelúcia continua imóvel, aterrorizado ao descobrir que os monstros são a “mamãe” e o “papai” de Martin.
Eles olham feio para mim, e eu olho feio para eles. Uma febre raivosa começa a queimar dentro de mim.
Traidores! Vilões! Quero gritar, me sentindo inútil por não poder combatê-los, como faço com os monstros das nossas brincadeiras. Sem perceber a minha raiva, “mamãe” e “papai” começam a se mover novamente. Sobem mais um andar, abrem a porta de um quarto escuro, pequeno e cheio de teias de aranha, que não foi feito, de jeito nenhum, para ursos de pelúcia assustados. E me deixam lá, ao lado da janela.
No dia seguinte continuo ali, horrorizado, depois de passar a noite sozinho, sem saber o que aconteceu com Martin. Da janela posso ver o jardim, onde brincávamos todos os dias. De repente, vejo Martin. Ele veio me salvar, eu penso. Mas há outro menino com ele, trazendo consigo uma bola preta e branca. Ele ensina Martin a jogar com ela e, no final do dia, estão rindo e brincando juntos. A noite chega, e Martin não vem me procurar.
Dia e noite, os bichos que vivem no quarto sobem em mim, as aranhas andam com suas patas finas e pontiagudas na minha pelúcia, enquanto tecem teias ao meu redor. E as traças, inocentes na aparência, mas violentas em sua natureza, lentamente arrancam pedaços de minha pele na lenta tortura do abandono. Assim, anos se passam, e vejo cada vez menos Martin no jardim.
Um dia volto a vê-lo, não através da janela, mas na minha frente, no quarto empoeirado onde tenho estado confinado. Seu rosto está diferente e suas roupas são mais adultas, mas sei que é ele, porque no momento em que me vê, diz:
— Teddy!
Ele me pega cuidadosamente por debaixo dos braços e limpa o pó acumulado na minha cabeça. Estou radiante. Martin voltou para mim, penso, agora vai ficar tudo bem.
Mas ele não me leva ao nosso quarto, como eu esperava. Ele me conduz para a frente da casa, onde um carro cheio de malas o espera. Penso, animado: vamos viajar!
No entanto, em vez de me pôr dentro do carro, Martin abre a lata de lixo e me joga dentro. Enquanto observo a tampa da lixeira se fechando sobre mim, relembro todas as nossas aventuras. Ao longe, ouço o barulho do carro se afastando.

Autora: Isabel Berriel
Ilustração: Giulia Moon
Este conto fez parte de uma das atividades práticas do Escrevivendo Menos é Mais

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