quarta-feira, 16 de março de 2016

Conto - Do outro lado da vitrine



Nossos olhos se encontram pelo vidro da vitrine. Eu do lado de cá, ela, do lado de fora. Olhares quentes. Que mulher é essa? Pensamos. Que delícia, cara! Assim que ela entra na loja ficamos maravilhados com as coxas. O conjunto todo, desde a virilha, descendo pelas pernas e pés é o que desejamos, mais que qualquer outra coisa no mundo. E que boca deliciosa! Nada daquelas coisas trincadas, opacas, velhas como ameixa seca, lábios toscos de búfalo no deserto Lábios que exageram em M.A.C e H. Couture Beauty, puro rouge paixão.
Vimos muitas mulheres entrarem por aquela porta, todas fúteis, total baixa renda. Fêmeas medíocres. Nenhuma mulher nos fez salivar de vontade como ela está fazendo. Nossa vontade era enfiar a boca naqueles pés maravilhosos e deixar que ela massageie nossas línguas. Que coisa louca! Perfeito.
Está decidido! Ela será a mulher das nossas vidas, um poliamor supremo que transcende o tempo. Rogamos muito a pele lisinha e macia nos envolvendo. Nossa mente vislumbra ficar com ela, apertadinhos, passeando por todos os cômodos da casa. Viver aos seus pés
A porcaria de desejar um par de pernas como essas, é atrair olhares invejosos e concorrência. Todos na loja também a desejam. Eu ouço todos os sussurros de lascivia, cuspidos contra a moça. Repugnante! Apenas parem! Vocês são ridículos, baratos demais para fazerem conjunto com aquelas pernas. Visão de crocs do inferno!
Quase enfartamos quando ela passa ao nosso lado. Sentimos o perfume caro da Givenchy. Maravilhosa, claro. Juntos a transformaremos em uma diva e atrairemos todos os olhares. Faremos o trio perfeito. Será fácil dormir com ela todas as noites após suas festas.
A danada passeia pela loja passando as mãos nos outros. Ficamos com muitos ciúmes. Os caras gemem a cada dedada. Ficam enfeitiçados pelo toque. Que mulher dominadora, que poder.
De fato todos a querem. Danem-se, ela será nossa. Precisamos agir rapidamente antes que ela fique com outro. Emanamos nossas energias ao máximo. Nosso verniz negro é superior a um Roger Vivier, nós temos todos os artifícios para despertar os desejos dela, só precisamos entrar em sintonia.
Damos sorte. O raio de sol que surge dentre as nuvens densas do lado de fora. Nossas formas delineadas são iluminadas, o brilho do verniz negro é intenso e perfeito. Nosso couro brilhava, um corpo perfeitamente moldado, excitado. Os melhores dentre os melhores, os abençoados. Conseguimos atrair a atenção da gata e quase morremos quando percebemos seus passos em nossa direção.
Sentimos o toque suave de suas mãos, estamos delirando. Seus dedos passam em nossa boca e em nosso meu bico. Toque suave, louco, uma tensão inacreditável. Sentimos sua respiração intensa em nossa pele e a mulher nos apalpa com mais vontade quando sente nosso cheiro. Que gostoso! Ela nos tocou muito mais forte do que os outros. Eu disse que nós somos muito mais especiais do que aqueles pobretões de bico pequeno.
A atendente nos tira da prateleira e nos coloca aos pés da diva. Seus lindos e doces pés nus, delicados e saborosos são colocados em nossa boca, numa penetração intenção e suave. Sem proteção alguma. Sentimos cada dedo da delícia. Encaixam-se perfeitamente, estamos completos. Somos perfeitos, como Bonny e Clydes, cúmplices e amantes. Conseguimos o graal tão sonhado!
Custamos dois mil e quinhentos, sem desconto. Somos coisa fina, meu jovem. Nada de crocs, havaianas ou borracha da fábrica do zé. Artigo de luxo, fino de extremo bom gosto.
Jaqueline Stiver Delangélica, o nome de princesa deliciosa, um nome tão caro quanto sua carteira de couro legítimo. Paga sem piscar com seu cartão Infinity, daqueles que não possuem limites, daqueles especialmente feitos para nós. Afinal, limites é para os baixa renda, coisa que não somos. É disso que precisamos. Agora estamos bem na fita e foda-se os outros sapatos! Somos mais lindos, ricos e poderosos. Somos o melhor sapato dentre todos. Viveremos nas mansões eternamente! A justiça divina não falha com aqueles nascidos em berço de ouro.
Festas, aí vamos nós!

***
15 dias depois...

“Socialite de Interlagos doa todos os seus sapatos para uma ONG na Rocinha, no Jardim Angela, para contribuir com o novo projeto de revitalização do espaço artístico e esportivo para as crianças. Enquanto os sapatos não vão para leilão ficarão guardados num barracão em São Conrado para avaliação.”

Conto escrito por Daniel Constantini
Ilustração de W. Tierno

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