terça-feira, 19 de abril de 2016

Sobre a cegueira e os borrões


Nos meus cinco anos, eu era uma criança quieta, que passava a maior parte do tempo observando o mundo dos adultos. E uma das coisas que mais me davam prazer era ver meu pai trabalhar.

Seu Kazuo tinha uma profissão pouco comum: era cartazista. Escrevia com letras caprichadas placas de alfaiates, dentistas, escritórios de advocacia, numa época em que essas plaquinhas eram mais do que simples peças informativas. Eram pequenas obras-primas, que atestavam o capricho e o cuidado do profissional atrás da porta. Se era uma modista, seu Kazuo pintava uma letra manuscrita leve e elegante. Se era um carpinteiro, escolhia uma tipologia robusta com textura de madeira.

Mas ele era bom, mesmo, para desenhar. De vez em quando desenhava retratos, pintava quadros. Com o tempo, acabou se especializando em painéis de cinema, onde fazia melhor uso do seu talento. Numa época em que as impressões em tamanho gigante ainda eram raras, seu Kazuo pintava com rapidez impressionante painéis de dez, vinte metros, que reproduziam os cartazes dos filmes exibidos em cores vivas e chamativas. O espaço sideral de 2001 - Uma Odisseia no Espaço, o pistoleiro Clint Eastwood, o samurai Toshiro Mifune e a deslumbrante Gina Lollobrigida passaram pelo pincel dele antes de ornamentarem as fachadas do Cine Coral, Comodoro, Cine Jóia, Cine Niterói. Uma arte efêmera, que só durava algumas semanas, até o filme sair de cartaz.

Nessa época, eu me sentava ao lado de meu pai, numa cadeirinha vermelha de madeira, para vê-lo trabalhar, misturando tintas, manejando com habilidade os pincéis. Para mim, o que ele fazia parecia muito divertido.

Seu Kazuo era um homem quieto e sério, que trabalhava de domingo a domingo, mas cumpria um ritual sagrado todos os dias: depois do almoço tirava uma sonequinha tranquila de uma hora. Certo dia, depois que ele foi se deitar, fiquei olhando para o painel inacabado escorado na parede. O rosto de uma mulher bonita estava quase terminado, só faltava a boca, onde havia apenas os traços a lápis e o contorno suave feito com um pincel fino num marrom-claro aguado.

Então tive a ideia genial: eu iria terminar o desenho para ele! Afastei com cuidado o banquinho coberto de respingos de tinta, onde ele sempre se sentava, postei-me na frente do desenho e peguei o pincel. Meti-o na latinha de tinta vermelha e comecei a preencher o local da boca, delimitado pelos traços em marrom. Foi fácil! E foi bem divertido, como eu imaginara. Terminei o meu trabalho e contemplei a minha obra, orgulhosa. Tinha ficado ótimo.

Quando meu pai acordou e postou-se na frente do painel, eu estava por perto, atenta, ansiosa para ver a sua reação. Ele olhou para a minha contribuição e ficou um longo tempo contemplando-a. Não disse nada. Apenas pegou a tinta branca e cobriu a boca que eu havia pintado. Esperou que secasse, e cobriu de novo, até não restar nenhum resquício das manchas de vermelho. Depois corrigiu a cor das faces em torno da boca, refez os contornos de marrom claro e pintou a boca com a mesma tinta vermelha que eu havia usado.

Eu estava decepcionada. Ele tinha apagado o meu trabalho para refazê-lo igualzinho! Quando perguntei o que havia de diferente entre a boca que eu havia pintado e a que ele havia feito, seu Kazuo riu. Afagou a minha cabeça e disse:
“Quando for maior, você vai perceber.”

Era verdade. Havia cor, luz, nuances naquela boca que eu, na minha percepção de criança, não tinha percebido. A única coisa que percebi, à época, é que seu Kazuo passou a fazer pequenas telinhas com tecido e restos de madeira, e que me dava algumas tintas para desenhar, sentada na minha cadeirinha ao seu lado.

Mas a grande lição daquela tarde, eu já havia assimilado. Assim como a boca que pintei naquele dia, muitas coisas que a gente acha genial pela vida afora na verdade são simples borrões. Falta-nos vivência, sabedoria e sensibilidade para perceber o quanto algo feito por um verdadeiro profissional, um artista, um conhecedor, está acima de algo – a mesma coisa – feito por qualquer um.

Essa “cegueira”, essa incapacidade de enxergar mais e melhor tudo que nos cerca sempre me incomodou. Dói-me ver as pessoas colocando num mesmo patamar trabalhos medíocres e obras excepcionais. E isso se torna ainda pior quando olhamos para nós mesmos com essa forma míope de enxergar.

Sou uma escritora e você, que me lê agora, talvez seja também – ou sonha em ser. Há quanto tempo você não lê algo que o faz se arrepiar, sentir uma energia intensa emanando de suas páginas, sentir que – realmente – valeu a pena ler esse livro, esse conto, esse poema, e que teria pagado com prazer o dobro, o triplo do seu preço, só para lê-lo? Quantos livros você leu no último ano apenas por obrigação, por amizade, ou porque está na moda? Quantos livros mais-ou-menos você elogiou e indicou com entusiasmo, só porque são um pouco melhores do que a mediocridade geral? Cuidado. Aprimore o seu senso de qualidade. Somos, ou deveríamos ser, os críticos mais acurados de nós mesmos. Não se cerque apenas de coisas medianas, ou você será, no máximo, um escritor mediano.

Voltando ao seu Kazuo e sua filhinha de cinco anos: ele poderia ter tomado o caminho fácil, o de elogiar a arte da sua caçulinha engraçadinha. Eu teria ficado feliz, muito mesmo. Mas teria perdido uma lição de toda uma vida. Seu Kazuo me tirou de um mundo de fantasia e me mostrou, com toda a delicadeza, o caminho para o mundo real.

Quantas vezes você elogiou um trabalho sofrível de seu amigo, de seu filho, do seu amor, só para deixá-lo feliz? Quantas vezes as críticas que ouviu são realmente construtivas, consistentes, e o fizeram melhorar – de verdade?

As melhores críticas são aquelas que nos fazem enxergar o nosso trabalho de forma límpida, clara, real, sem a interferência de coisas que nada têm a ver com o assunto como a amizade, fidelidade, companheirismo e amor. E essas críticas só acontecerão se você se mostrar aberto a recebê-las. Porque o maior beneficiário dessas críticas é você, não a pessoa que o está criticando.

E, por fim, nada disso – nada mesmo – funciona se a postura de crescer, de se aprimorar, de descobrir e destrinchar o mundo não for constante.

“Quando for maior, você vai perceber”, disse seu Kazuo. A verdade dessa frase não se resume apenas ao fato de uma menina de cinco anos saber mais aos dez. Diz respeito a qualquer pessoa de qualquer idade, seja aos cinco ou aos oitenta anos. Sempre haverá mais a se descobrir, a se aprender. A cada dia podemos polir nossa percepção sobre escrita, relacionamentos, amizade, política, sobre tudo, enfim.

É preciso sempre elevar o topo da nossa escala de qualidade.

Afinal, somos eternas crianças fazendo borrões pela vida afora. O que nos salva é a certeza de que amanhã seremos melhores do que hoje.
E você? Tem essa certeza?

Ilustração: Giulia Moon

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